Postagens

Tradição e moralidade: simulacros éticos (2018)

Imagem
 Tradição e moralidade: simulacros éticos O papel das tradições em nossos comportamentos individuais e coletivos é comumente e constantemente um ponto de tensões. Por um lado, é por via das tradições que aprendemos o que a humanidade já construiu, já pensou e já viveu. Por outro lado, as tradições podem manter vivas uma série de comportamentos reprováveis - e por vezes nefastos - que poderíamos já ter abandonado caso eles não fizessem parte de “pacotes” de ideias tradicionalmente estabelecidos, especialmente quando esses pacotes trazem consigo elementos que dificultam seu questionamento, como os que apelam ao medo de punição em caso de oposição ou mesmo de dúvida. É importante para qualquer ser humano conhecer os caminhos pelos quais nossa espécie já caminhou, apropriar-se deste histórico e se deixar influenciar pelas conquistas intelectuais, morais e materiais de nossos milhares de anos de história documentada. Contudo, é preciso haver cuidado para não se dogmatizar as tradições, ...

Os riscos da transdisciplinaridade (2018)

Os riscos da transdisciplinaridade   Almejamos pessoas que consigam olhar para a complexidade do mundo de forma não fragmentada. Muitos possuem como primeiro impulso o desejo de acabar com as disciplinas escolares. Esse movimento, contudo, pode gerar uma educação onde os estudantes, em nome de não dividir o olhar, não desenvolvem nenhum olhar.   Concordo com a necessidade de uma formação que tenha o objetivo de que consigamos ler o mundo sem os limites disciplinares, mas, para isto, é preciso que as escolas compreendam quais são as habilidades cognitivas essenciais de cada disciplina tradicionalmente existente, assim como quais são os conhecimentos básicos para nos inserirmos neste momento e local da história e da geografia humanas. Isso não pode se perder. Pode-se trabalhar com programas de ensino não disciplinares, mas esse âmago do processo educativo, sob o risco de não mais educar, não pode se perder.   Dennis Zagha Bluwol, 2018

Um comentário sobre "conteúdo versus inteligência" (2017)

Um comentário sobre "conteúdo versus inteligência"   Uma das falas mais comuns em cursos de formação de professores é que não devemos ser “conteudistas", mas sim ajudarmos os estudantes a desenvolverem “inteligências" (ou “habilidades cognitivas" ou “aprenderem a aprender").   Contudo, quando armazenamos uma informação ( conteúdo ) na memória de longa duração de nosso cérebro (no córtex), criamos novas conexões entre os neurônios já existentes (e não novos neurônios), ou seja, criamos mais vias de processamento cognitivo, tornamos nosso "hardware" mais eficaz, com maior capacidade de processamento, de comparação entre as informações já arquivadas ou entre as informações que já possuímos e novas informações que nos chegam pelas vias sensoriais, ou, em outras palavras, nos tornamos mais hábeis para lidar com ideias e com as informações que nos chegam do mundo externo (assim como de nossa própria mente), nos tornamos mais hábeis para produzirmos con...

Nota sobre o iluminismo

O iluminismo não  levou o mundo ocidental à iluminação. Livrou-nos de algumas penumbras, mas os becos sombrios persistem.

Insanidade (crônica, 2017)

Certa vez ouvi de alguns conhecidos espíritas que este mundo é um local de provações para nossa evolução; um tipo de hospital para nossas almas. Confesso que em alguns momentos achei esta visão possuidora de certo interesse. Refletindo melhor, no entanto, a visão do hospital parece-me incompleta. Talvez inocente.  Talvez sejamos, em realidade, um hospício. Todos aqui são insanos. Muitos, em alto grau. O insight de Jesus “eles não sabem o que fazem” ganha aí um interessante contorno (ainda que, de certa forma, a maioria saiba o que faz, o que faz com que, para além de um hospício, pareçamos muito com uma prisão psiquiátrica). Entre os insanos, alguns possuem lapsos de sanidade em meio à insanidade. Estes costumam ganhar a alcunha de sábios. Todo hospício tem seus professores e oradores, normalmente falando para ninguém. Dennis Zagha Bluwol, 2017

Caneca de Osso? Também tem! (Crônica, 2016)

Imagem
                         Uma aluna quis dar-me um presente de final de ano. Disse-me:           - Foi difícil escolher algo porque o senhor é vegano. Mas como o senhor está sempre bebendo café na aula, trouxe uma caneca .           Canecas me preocupam de antemão, dada a possível presença de chumbo. Levei-a para casa, onde li o texto presente em sua caixa. Material: bone china.           Pesquisando, descubro: tipo de cerâmica feita com 30 a 50% de cinzas de ossos de animais. Mais um exemplo da infinita sequência de aberrações e perversidades humanas. Meu presente especialmente escolhido para um vegano era feito de animais mortos, descarnados e incinerados. Em todas as partes, por todo canto, toda a violência dos sapiens resplandece.

Nota sobre as escolas

Todas as fábricas, quando param de produzir, dão férias coletivas. Menos as escolas.