Relativismo e absolutismo moral: meandros e margens

  


Relativismo e absolutismo moral: meandros e margens *

Introdução

Este ensaio investiga como o relativismo e o absolutismo moral, embora aparentemente opostos, muitas vezes se entrelaçam em práticas incoerentes que fragilizam o avanço ético.

Como alternativa, investigamos a possibilidade de uma ética racional e compassiva, capaz de estabelecer margens morais, mas também de saber navegar pelos meandros por ela contidos, valorizando a necessidade tanto do absoluto quanto do relativo.

Relativismo, absolutismo, progressismo e conservadorismo: acusações e amálgamas.

Muito se fala atualmente, especialmente por pessoas do campo conservador, sobre certo relativismo moral dominante em nossa cultura. Há substrato nessa acusação? Por um lado, sim. De fato, vivemos um tempo no qual os julgamentos são extremamente individualizados (“para mim, isso está certo”) e relativizados, dado que, não havendo referências morais obrigatória, é comum que a moral seja extremamente variável, fluida, volúvel, de modo que os indivíduos tendam a alterar seus julgamentos sobre quais atitudes seriam corretas dependendo do caso, do momento, dos objetivos almejados com cada ação, dos desejos momentâneos ou mesmo de quem está sendo julgado (por exemplo, alguém do mesmo campo político poderia fazer coisas que pessoas de outro campo não poderiam fazer sem serem acusadas de imorais).

Simultaneamente, muito se fala atualmente, especialmente por pessoas do campo progressista, sobre certo absolutismo moral dominante em nossa cultura (ainda que não necessariamente usem tal expressão). Há substrato nessa acusação? Por outro lado, também sim. De fato, ainda vivemos uma realidade social em que diversos comportamentos tentam se impor como se tivessem que ser seguidos por todos, mesmo quando ferem subjetividades ou quando análises racionais e éticas sobre eles concluem que tais comportamentos - tal moralidade pretensamente superior - seriam, em realidade, imorais.

O relativismo moral contemporâneo é, ao menos em parte, fruto de uma oposição relativamente recente ao absolutismo moral que sustenta normas tradicionais - seculares ou religiosas, ou seja, à imposição comum (e, outrora, extremamente poderosa) a toda a sociedade de certos comportamentos padronizados, mesmo quando são imorais, opressivos e injustos.

O absolutismo moral contemporâneo é, ao menos em parte, fruto de uma oposição relativamente recente ao relativismo moral extremamente difundido, que, se radicalizado, extermina a possibilidade de se apontar para princípios morais que devem ser necessariamente mantidos e seguidos por todos, em nome da sanidade social e do bem-estar dos seres sencientes.

O viés absolutista de éticas mais conservadoras - seculares ou religiosas - costumeiramente breca o avanço social de moralidades mais dignas e respeitosas, advindas de reflexões racionais contemporâneas baseadas em dados empíricos e nuances investigativas ostracizadas no passado.

O viés relativista de éticas mais progressistas flerta com o desmonte de percepções morais já conquistadas pela humanidade, seja oriunda de tradições - seculares ou religiosas -, seja oriunda de conclusões racionais contemporâneas, sob a bandeira da não imposição de verdades morais - como se a defesa de comportamentos mais sãos, éticos, justos e compassivos, em detrimento de comportamentos tradicionalmente estabelecidos, fosse uma forma de opressão, imperialismo ou colonização a ser rechaçada.

(Nesse ponto, progressistas e conservadores se amarram às tradições - apenas variando a quais tradições se amarram).

Progressistas e conservadores também se amalgamam no apreço a certo relativismo conveniente. Assim, podemos facilmente topar tanto com posicionamentos como “sou cristão praticante, mas creio que devemos odiar nossos inimigos e não perdoar seus erros - se possível com arma na cintura e pena de morte nas leis!”, como com posicionamentos como “acho a corrupção uma nefasta chaga nacional, mas ela pode ser usada para o bem de nosso plano político emancipador” ou “sou contra o assassinato e a pena de morte - talvez até vegano, considerando inclusive outras espécies como beneficiárias de nossas mais básicas intuições morais -, mas o aborto deve ser legalizado”.

E, como o absolutismo é comumente a dogmatização de um relativismo (a dogmatização da minha posição particular ou da posição particular do meu grupo, mesmo que nossa posição não tenha fundamentos racionais sólidos, mas apenas nos convenha ou tenha se arrastado pelo tempo, tornando-se tradicional), tanto progressistas quanto conservadores podem absolutizar a validade de certos comportamentos imorais quando estes são praticados por certos grupos de pessoas ou em situações específicas, gerando algo como um absolutismo relativista ou um relativismo absolutista: o meu erro moral, por ser meu ou do meu grupo - já que somos os detentores da verdade ou os bastiões da emancipação humana -, deve se impor sobre todos.

Em suma, o absolutismo moral não se limita ao campo conservador e o relativismo moral não se limita ao campo progressista. Eles são estruturais e amplamente difundidos, coexistindo em todos os espectros políticos e ideológicos de nossa sociedade.

 

Coexistência do absoluto e do relativo

O relativismo e o absolutismo moral coexistem, portanto, em nosso tecido social, ambos com força e, por vezes, representando duas facetas do mesmo problema, ou dois nomes do mesmo fenômeno de fundo: o desinteresse em se buscar verdades éticas a partir de reflexões sistemáticas e contínuas sobre como evitar a geração de sofrimento desnecessário, de injustiça e de opressão em cada situação da vida. Tanto o relativismo quanto o absolutismo moral são, assim, danosos para a ética.

É comum que os comportamentos socialmente dominantes, se não encalharem nos gostos e desejos pessoais (relativismo radical), encalhem na dificuldade em se recusar a reproduzir erros morais consolidados (absolutismo radical).

Mas isso significa que toda a relatividade e todo o viés absoluto da ética devem ser negados? Se assim fosse, restaria apenas o vazio. Contudo, é neste ponto que novos meandros podem nos levar para margens mais saudáveis.

Reflitamos juntos: se, em uma postura compassiva, entendermos a ética como a tentativa de estipularmos padrões de comportamento capazes de diminuir o sofrimento gerado por nossos atos, ou mesmo, quando possível, o sofrimento não gerado por nossos próprios atos, teremos um terreno fértil para reflexões racionais capazes de, se não conseguirem definir a melhor opção de ação para todos os casos, ao menos conseguirem diminuir a quantidade de opções aceitáveis ou justificáveis.

Nas palavras de Harris (2013, p.66):

considerações morais se traduzem em fatos sobre como nossos pensamentos e ações afetam o bem-estar de criaturas conscientes, como nós mesmos. Se existem fatos a serem descobertos sobre o bem-estar de tais criaturas — e há —, então deve haver também respostas certas e erradas a perguntas de cunho moral.

 

Em suma, se o objetivo da ética for diminuir o sofrimento, a injustiça ou a opressão gerados por cada ação, é válido almejar que, a partir de um conhecimento minimamente fidedigno sobre como cada ação pode impactar seres sencientes ou ambientes nos quais seres sencientes vivem, e com uma dose de raciocínio lógico, possamos tentar chegar às melhores opções morais possíveis para certa realidade concreta.

Esse resultado possui uma nuance absoluta, pois ele não depende da vontade de cada sujeito nem da tradição na qual cada pessoa nasceu ou se inseriu, mas surge da reflexão compassiva almejando atos que sejam o menos violentos, destruidores e opressores possível. Tal moral, que deve criar caminhos absolutos, é obtida a partir de conclusões geradas pelo pensamento ético racional e complexo, e não de ordens dadas sem justificativa.

Um exemplo: não importa se o consumo de animais, ato tradicional, seja algo tido como normal e plenamente aceitável. Se temos certeza (e já temos) que animais são sencientes, ou seja, que são capazes de sentir e ter algum grau de consciência do mundo e de si mesmos - em suma, que são capazes de sofrer e de experienciar diversas emoções -, e temos conhecimento suficiente para não mais dependermos de tais atos, a conclusão lógica é que não temos o direito de escravizá-los, torturá-los e assassiná-los.

Ou seja, não há como se defender que comer animais ou usar suas secreções (leite), seus ovos, suas peles, seus corpos… possam ser práticas moralmente defensáveis no mundo contemporâneo. Trata-se de uma conclusão racional derivada da percepção do mundo tal como ele é, almejando uma real diminuição da imposição de sofrimento desnecessário, de injustiça e de opressão, e não apenas de opiniões pessoais ou de alguma doutrina tradicional ou ideológica específica.

O mesmo tipo de raciocínio valeria para práticas comprovadamente destruidoras do ambiente coletivo - do planeta. Como justificar eticamente que o interesse de alguns destrua a casa de todos, desta e das próximas gerações?

É desejável, portanto, que tenhamos um viés absoluto em conclusões éticas baseadas no mundo empírico e na lógica, caso nosso objetivo seja diminuir o sofrimento, a injustiça e a opressão gerados por nossos atos: é preciso que margens éticas sejam definidas, contrariando as crenças de um relativismo moral absolutista.

Tal viés absoluto, porém, não representa um absolutismo moral cego, já que é fruto de reflexão coletiva, não impõe práticas determinadas a priori dos julgamentos éticos compassivos e racionais e está aberto ao debate, mantendo aberta a margem para alterações e melhoramentos.

Esse viés absoluto é, portanto, derivado do estabelecimento de relações. Não é relativista, mas é relacional, e, então, relativo: relativo ao mundo empírico, à realidade do sofrimento e ao pensamento lógico que visa o estabelecimento da melhor ação possível para cada situação.

É desejável, portanto, que tenhamos também um viés relativo em conclusões éticas baseadas no mundo empírico e na lógica: no interior das margens éticas, meandros devem ser navegados (e, quando os meandros pressionarem as margens, averiguar com honestidade, mas sem obrigação - sem um progressismo absolutista - se é necessário ampliá-la).

 

Conclusão propositiva

Vimos que o absolutismo e o relativismo moral coexistem em nossa sociedade, e ambos - duas faces da irracionalidade - são danosos para nosso aprimoramento ético.

O absolutismo busca matar o relativo e o relativismo busca matar o absoluto, mas, no limite, ambos tendem a absolutizar seu relativismo, não apontando para reflexões éticas capazes de ser ao mesmo tempo relativas e absolutas, ou seja, que tenham a sabedoria necessária para lidar com os meandros da existência sem, com isso, ultrapassar margens éticas obrigatórias.

É preciso que saibamos conviver com a coexistência do absoluto e do relativo, que não precisam anular um ao outro. Para isso, precisamos ser capazes de termos uma visão relacional, complexa, apta a compreender um mundo estruturado com base em coexistência e interdependência.

A moral vive aí, nesses meandros, no interior de tais margens: ela é fruto de relações, mas, ao conseguir estabelecer direções que gerem menos sofrimento, violência e opressão, ela deve ser entendida como algo a ser seguido, sem espaço para desejos pessoais, individuais, identitários, ideológicos etc.

 Essa postura é capaz de gerar uma resposta única e perfeita para todas as questões? Não. A realidade é complexa, vivemos imersos em um mundo de sofrimentos, em uma natureza impiedosa, e, geralmente, nenhuma opção viável é perfeita. Contudo, tal postura pode nos colocar no caminho mais certo possível e excluir posições nitidamente imorais, ainda que, no interior de tais limites, haja meandros, nuances e dubiedades.

O relativismo e o absolutismo possuem como frutos, costumeiramente, a violência, a opressão e a morte. A coexistência entre o absoluto e o relativo tende a uma moral mais saudável, pois está focada no mundo real, empírico, e na vontade honesta e compassiva de diminuir o sofrimento, a injustiça, a violência e a opressão, especialmente quando gerados por atos intencionais.

Eis algo pragmático e que podemos, como indivíduos e como sociedade, arquitetar.

 

Referência bibliográfica

HARRIS, Sam. A Paisagem Moral: como a ciência pode determinar os valores humanos. São Paulo, Companhia das Letras, 2013, 305p.

* Revisão de ensaio publicado em 2022 


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