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A Corrupção do incompreensível

 A Corrupção do incompreensível é o compreensível

A vegana arte de apreciar obras de arte (crônica)

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Certeza tenho de que a vida vegana é algo bom. Mas, dado esse olhar, o incômodo segue-me onde quer que eu vá. A vida é um grande espetáculo de dor e violência.Tenho culpa se a normalidade é tão assombrosa? Sou ranzinza pela violência ser o status quo? Adoro música clássica e às vezes vou a concertos, durante os quais, mesmo estando com a mente a anos-luz de distância, inebriado por todo aquele som, aquelas dezenas de instrumentos em acordo, levado por relevos sonoros inimagináveis, há sempre algo me cutucando os neurônios: esses arcos são feitos com crina de cavalo! Incômodo que perdura mesmo na mais delicada sinfonia. E fico pensando: o que mais deve haver de origem animal nesta orquestra? Será que estes instrumentistas capazes de toques tão doces são devoradores de cadáveres? Será que eles festejam uma boa temporada com um grande churrasco? E as crinas? Não há outro modo? Dizem que os materiais sintéticos não produzem um som tão bom. Mas vos pergunto: e o que o cavalo tem a ver com i...

O Feijão Mágico (Conto, 2009)

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Uma vez recebi uma estranha carta não assinada. Dizia que havia se afeiçoado muito por opiniões minhas publicadas em certo texto, onde expunha minha visão a favor da libertação dos animais das mãos de seus carrascos humanos. Dizia que não podia dizer por carta, mas havia um porquê muito profundo nes s e interesse em minha pessoa. Combinamos um encontro em um famoso parque de São Paulo. Pequeno, com uma longa barbicha e ar bem simpático, apresentou-se como “o Gênio”. Contou-me sobre sua história de vida. Havia também vivido uma vida de clausura graças à humana sede de poder. Viveu por centenas de anos confinado em uma espécie de lamparina, sendo-lhe permitida a saída apenas para realizar desejos daqueles que a possuíram. Pedidos mesquinhos, invariavelmente, como era de se esperar. Não me contou sobre como escapou dessa condição, mas hoje vive livre, ainda que praticamente sem sair de sua pequena chácara nos arredores da cidade. Viramos grandes amigos. Nossas conversas acerca da libe...

Amargor contextual

Tendemos a uma amarga forma padrão de doçura. Esse amargor contextual é sabido? Não creio que não seja sentido. Talvez seja sabido. Só o que não se sabe é saber saber o que se sabe. É difícil saber saber em mente colonizada. Olhar colonizado. Papilas colonizadas. Falar sobre nada é discursar da montanha? Sabia que chamam isso de Música? E que salivam com este odor? Você vai mesmo ingerir isso? Rastejamos. Rastejamos pelo resto, mendigamos o resto de nada que nos brilha como um olimpo festejante. A ilusão nunca foi tão real. Ilusões alegram. Por pouco. Mas, assim, nunca mais seremos felizes.  

Indefinindo-me a vida

Como viver sem definir as coisas? Como viver sem absolutizar? Quero escrever sem definir, mas sem me omitir. Quero escrever revelando as aberturas. Consciente da ação de escrever: uma opção de compreensão e atuação. Pelo menos por enquanto. 

Somos míticos?

Base das religiões e das ciências: procurar uma forma de definir e explicar todos os processos da realidade. Precisamos mesmo dessa mitologização do real?

Há algo absoluto debaixo do absurdo Sol?

Se há algo absoluto, sempre presente em tudo, este absoluto é a confusão, a aleatoriedade, a incontrolável transformação. O mundo humano, cheio de sentidos, é, claramente, um absurdo, mas que nos permite operar: é pelo absurdo que vivemos; é impondo nossa própria visão de ordem para poder viver o caos. Mas o caos é o caos.  Nós criamos nossas formas de perceber o mundo e, assim, aquilo que podemos ser a partir de nossas percepções. Criamos sentimentos, valores, conhecimentos, que nos fazem ser o que somos. Nós é que nos criamos. Eis um criacionismo válido. Nossas verdades são verdades por partirem do mesmo ser que as coloca em julgamento. Até o próprio “eu” é uma criação da mente, e pode ser profundamente transformado várias vezes durante a vida. O “eu” também não existe de fato. Quem sou eu? Posso ser vários. Posso ser um? Posso ser um de cada vez? Posso ser muitos sempre? Chamam de Deus uma extensão, em escala universal, de nosso absurdo pessoal.