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Também Celebro (Poema, 2011)

Também Celebro (um poema de inocência de um autor superado) Para Walt Whitman Também celebro. Sofro mas celebro. Sofrer e celebrar não se anulam e não extinguem o canto de louvor.   Poderia dizer que sou o solo, as águas, o ar, você. Mas o que é o solo senão um assombroso amontoado de não solo? Ser não sendo aponta para o fundamento de ser.   Não há crise de identidade. Identidade é um sintoma da crise. Isto sinto e disto sei.   Poderia celebrar você e o vento e a água por nos dependermos mutuamente. E celebro. Mas ma atento mais para a existência que para a dependência. Poderia nada haver, mas o existir foi concedido. Curvo-me.   Sei que nossas coisas são filhas das coisas da natureza. Mas sei também que são diferentes e nos moldam diferentemente. Sei que barulho e silêncio coexistem. Respeito. Mas silêncio e barulho nos moldam diferentemente. E sei que o barulho da natureza não é barulho. E o das máquinas é.   No i...

James, o acadêmico qualitativo (Conto, 2010)

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James, o acadêmico qualitativo James era um famoso pensador em sua universidade. Um procurado analista. Negava-se a ver as coisas quantitativamente. Uma vez lhe perguntaram sobre quantas pessoas ele já havia tido algum relacionamento amoroso, ao que ele respondeu: - Não sei, é uma pergunta difícil, pois há mulheres, assim como homens, evidentemente, que não valem uma unidade, outras valem muitas; mas, ainda, o que seria esta unidade, este equivalente geral? Isto seria impossível de encontrar, pois não há um equivalente geral em seres tão díspares entre si, de naturezas tão misteriosas. Assim, só o que sobra é a unidade biológica, genética, o limite do corpo, não da mente ou do espírito. Algo muito restritivo ao meu conceito de pessoa. Assim sendo, é impossível contar. E saiu de fininho enquanto todos se olhavam...

Compêndio da cosmovisão Picarética

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   Compêndio da cosmovisão Picarética   Metafísica  (Princípios da visão de mundo) A natureza última do universo é o absurdo. A natureza última não é nem uma essência nem um princípio, pois não é anterior nem posterior às coisas. O sentimento mais próximo da louvação é o espanto. As coisas “simplesmente” são. Este “simplesmente” não denota uma simplicidade, mas “apenas” que as coisas “apenas” são. Este “apenas” não quer dizer que isto é pouca coisa, mas apenas que as coisas são. E pronto. E coisas inter-relacionadas transformam-se e criam umas às outras, que devem suas existências às anteriores, mas são, ainda assim, sem planejamento prévio. As únicas coisas que possuem porquês são as criadas por seres conscientes. A complexidade destes porquês depende da complexidade da(s) consciência(s) que as criaram. E isto é muito variável, seja por espécie, seja por indivíduos da mesma espécie. O universo, portanto, apenas seria fruto de porquês se criado por seres conscientes ...

Jack, o militante (Conto, 2010)

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Jack, o militante “ A mente humana é uma grande sandice para nossa razão ” V.P. Zaghananda Há aqueles que desejam determinar a realidade. Outros desejam indeterminá-la. As duas possibilidades nos traem. Jack era dos primeiros. Ativista sistemático. Foi obrigado a atrasar-se para uma revolucionária reunião pois seu intestino, em postura típica de um opressor da humanidade, um verdadeiro escravocrata, não lhe deu opção além de parar e defecar. Coerência, combate, resistência contra o opressor! Resolveu extirpá-lo. No dia seguinte, suas tripas expostas ilustravam a primeira página do jornal do Partido.

Feliz Era Nova (Conto, 2010)

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Feliz Era Nova Trinta e um de Dezembro de dois mil e doze. Hordas de jovens reúnem-se tristes em um famoso parque para tomar chá e pensar no que farão daqui para frente. Há anos esperavam pelo fim. Crentes na chegada da Nova Era e no fim do calendário maia, esperaram o ano todo pelo fim do mundo, ou, ao menos – para os mais conformados – deste modo de ser do mundo, seja lá o que isso possa significar. Todos possuíam algo em comum: com muito esforço libertaram-se das amarras dos dogmas católicos e das liturgias judaico-cristãs. Agora seguem apenas o que for indiano ou pré-colombiano. Muitas tradições antigas possuem algumas palavras que são tidas como sagradas, muitas vezes passadas apenas a poucos iniciados. A maioria das pessoas da inesperada reunião no parque foi tocada pelas mesmas duas palavras, que possuem o poder de abrir suas portas de compreensão de verdades profundas que, como tais, não podem ser explicadas, apenas acreditadas. São palavras que, ao estarem associada a alguma i...

Um diálogo racional (Conto, 2010)

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Um diálogo racional Certo dia, um pequeno grupo de amigos e amigas, algo entre cinco e seis jovens, encontrava-se em um bar, quando avistaram, ao longe, religiosos passando, felizes, cantando em grupo. Um dos amigos enervou-se e o debate teve inicio. – Pleno século XXI e esses porras ainda acreditam nesse monte de merda! – Calma, talvez haja coisa boa entre eles... Valores, respeito... – Pode haver, mas são educados a achar que é bonito acreditar em algo que não se pode provar racionalmente. E isto é nefasto! – Mas provar algo racionalmente faz este algo ser menos nefasto? – Claro! A razão é nossa única forma de checar a veracidade de algo, pô! – Eu já acho que razão é criada pelo próprio pensamento, então é de menor importância que coisas mais profundas. – Coisas mais profundas? Do que está falando? Eu não sou contra sentimentos, valores, essas coisas, mas sem razão, só com sentimentos, voltaremos à barbárie. – Ou sairemos dela... – Tendo a concordar com você... – Vocês estão ficando ...

Alguns jovens à procura de solução

- Ficamos aqui dando murro em ponta de faca tentando resolver os problemas criados pelas instituições urbanas estando dentro das instituições e do urbano.  - Pois é... Acho também que a solução pros problemas urbanos está no campo, e que deveria ir pro campo ajudar a construir algo. - Mas, ao mesmo tempo, penso que a grande maioria das pessoas não tem como largar esse mundo e ir pra uma ecovila, por exemplo, não só por não querer, mas por falta de condições mínimas. - Mas, ao mesmo tempo, se alguns não começarem a criar no campo condições e estrutura para que as pessoas comecem a poder sair daqui mais tranquilamente, nunca vai acontecer. - Mas, ao mesmo tempo, as pessoas não detectam hoje a raiz dos problemas, é preciso ter educação no urbano pra ajudar a criar novas consciências, novos valores, novas necessidades, novos modos de conviver, de se relacionar. - Mas, ao mesmo tempo,