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Razão contemporânea: fronteiras e meandros (2020)

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  Razão contemporânea: fronteiras e meandros Os contemporâneos criticam os limites da razão. Os contemporâneos alardeiam a existência de mais de um tipo de razão. Sobre isso, possuem razão. Por isso, contudo, rejeitam a razão. Extinguem-na como se fosse uma força opressora. Apagam as fronteiras, danificando o contorno dos meandros por elas contidos.   Como opção, os contemporâneos possibilitam que o irracional não tenha limites e que a diversidade da irracionalidade seja louvada. Exaltam a irracionalidade como uma força libertadora e nela se aprisionam.  

A moralidade entre fronteiras e meandros

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  A moralidade entre fronteiras e meandros Bradam alguns em nome do “tudo vale", em nome da ausência de limites morais, em nome da total ausência de verdades. Puro relativismo.   Bradam outros em nome do mais estrito moralismo, do mais raso legalismo, em defesa de códigos pretensamente morais inquestionáveis e imutáveis. Puro absolutismo.   A redução da variedade existencial humana ao tombo entre o puro absolutismo ou o puro relativismo revela a dificuldade humana de impor fronteiras onde são necessárias e saber, igualmente, navegar pelos meandros por elas contidos.

Esquerda e direita: alguns meandros

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  Alardeiam que a sociedade anda extremamente dividida entre esquerda e direita. Fato. Seus titereiros andam à solta e excitados.   Tal diversidade de leitura de mundo não é de geometria ou orientação espacial. Trata-se da luta entre individualismo e coletivismo.   Individualismo e coletivismo são dois aspectos da mesma irracionalidade: o esvaziamento das existências reais: aqueles que veem indivíduos flanando no vácuo e aqueles que veem massas formadas por vácuo.   Coletivos saudáveis são formados por indivíduos saudáveis. Não há um limite nítido entre eles. O mundo dá-se nos meandros.   Aprender a navegar pelos meandros demanda razoabilidade e prudência. Razão e prudência cortam as cortas e desempoderam titereiros.  

O trem de Auschwitz (Conto, 2020)

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O trem saiu de Auschwitz. Acabara. Seu uso findou-se. Tornar-se-ia inútil, a enferrujar pelas décadas, infame, esquecido em algum terreno obscuro. A inutilidade, porém, essa sim, é um crime. Lesa-humanidade. O produtivo trem não poderia aceitar. Em pouco tempo, voltaria à ativa. Passara hoje, em estreia, a porteira do matadouro. Missão dada, missão cumprida!  

Violinos: entre a beleza e a tragédia (2020)

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Um dos primeiros textos que publiquei sobre ética animal, em 2009, foi uma crônica chamada “A Vegana Arte de Apreciar Obras de Arte". Um dos assuntos ali abordados foi a presença de crinas de cavalo nos arcos dos violinos. O presente texto visa aprofundar tal assunto. Recentemente, ouvi em um programa de rádio que tem como objetivo tirar dúvidas sobre música clássica uma explicação sobre a confecção dos arcos dos violinos. Quanto aos materiais, dois chamam a atenção: a madeira e as crinas. Não uma crina, mas um maço composto por diversos fios (cerca de 150 cerdas). Tais fios, com o tempo, vão arrebentando, até o momento onde a peça deve ser refeita usando mais um maço de crinas roubadas de cavalos escravizados e explorados (vale compartilhar que muitas crinas são obtidas de abatedouros, que retiram as crinas antes de assassinar os cavalos). Além das crinas, aprendi nesse programa que a melhor madeira para fazer-se bons arcos é o Pau-Brasil, a árvore que simboliza o início de des...

Omelete de domingo: uma memória familiar (crônica)

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Muitas vezes, no início de minha adolescência, entre 12 e 13 anos de idade, meus pais deixaram-me na casa de meus avós para passar o final de semana. Um dos momentos que eu mais gostava era o almoço de domingo, quando meu avô levava-me para a cozinha para fazermos juntos um omelete. Omelete de queijo e presunto, normalmente. Era um grande momento em família. Um de meus preferidos, no qual meu avô instruía-me com dicas de higiene e de manipulação dos alimentos. Meu alegre momento em família, vim a saber alguns anos depois, era, em realidade, um momento de destruição de famílias. Destruía-se famílias de galinhas, aprisionadas e escravizadas, cujos ovos, a maneira pela qual reproduzem e geram famílias, eram roubados. Destruía-se famílias de vacas, aprisionadas e escravizadas, cujos filhos, necessários para que produzam leite, eram roubados e muitas vezes mortos ainda infantes. As mães eram então novamente estupradas, engravidadas à força, e seguiam como máquinas produtoras de leite para o...

Ilhas 01 (Poema, 2020)

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Juízos bradam. Da caverna, emana outra voz. A razão, tímida, Sugere a dúvida. Em risco, busco ilhas. Curioso, enredo-me. Escrito a partir da crônica "Uma tarde após ler Nietzsche" (2011)