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Sobre a contemplação do atemporal e do anespacial

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Um questionamento comum no imaginário daqueles que estudam o modo como nosso Universo veio a existir por via do Big Bang é sobre o que haveria antes do Universo. A resposta dominante entre os estudiosos de astronomia ou de cosmologia é que tal pergunta não é cabível, pois só é possível falar em algum “antes” a partir do Big Bang, haja vista que o tempo nasceu nesse momento e é limitado às fronteiras do Universo. Seguindo a mesma linha de raciocínio, podemos conceber igualmente que perguntas sobre o que haveria fora do Universo também não seriam cabíveis, pois o espaço igualmente nasceu com o Big Bang e é limitado às fronteiras do Universo, o que faz com que noções espaciais como dentro e fora apenas possam existir no interior de tais limites. Assim sendo, o espaço e o tempo existem apenas no Universo, dentro de suas fronteiras ainda em expansão. Abre-se, por conseguinte, duas possibilidades: a primeira é a de que fora ou antes do Universo haveria uma inexistência absoluta de realidade....

Sobre a degradação da crítica e da ética pela corrupção da linguagem

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Sobre a degradação da crítica e da ética pela corrupção da linguagem A subversão da crítica             Em seu significado mais original e verdadeiro, uma crítica é uma separação: fazer uma crítica é realizar distinções sobre aquilo que se está percebendo (a origem latina do verbo discernir é a mesma do verbo grego de onde sai o termo crítica [1] ). Assim, a crítica pode ser entendida como um julgamento, uma apreciação minuciosa de algo. Isso significa que para que se alcance o centro do exercício da crítica - a comparação que leva ao discernimento - é essencial que se consiga reconhecer e relacionar diversos aspectos das questões, diversos posicionamentos e interpretações possíveis, de forma que se perceba seus detalhes, suas nuances, seus meandros e suas semelhanças e diferenças internas e externas.             Fazer uma crítica, portanto, é uma ação - verbo - e algué...

Epistemologia Hídrica

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  O que segue é uma proposta sobre como estruturarmos o modo como percebemos e organizamos os fenômenos do mundo, ou seja, sobre como devemos pensar sobre o mundo e sobre nossas ações. Assim sendo, trata-se de uma proposta epistemológica. 1 - Margens Para qualquer assunto que direcionamos nossa atenção, faz-se necessário checar os limites dos limites estabelecidos. Trata-se de uma postura de constante vigilância das fronteiras. Isso significa que devemos sempre checar os limites do que entendemos, acreditamos ou defendemos, o que acarreta: Alargá-los, quando se mostram sufocantes e não respondem mais ao avanço do pensamento coerente;  Observá-los mais atentamente, quando nossas práticas não respondem ao tamanho do arcabouço teórico que embasou tal limitação; e  Diminuí-los, quando os limites são gerados por teorias que mais oprimem e violentam do que ordenam. Tal movimento estabelece as margens (limites/fronteiras) daquilo que aceitamos estar dentro do curso do pensamento...

Cosmologia budista, ecologia, política e ética: conexões e cuidados

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  Introdução: uma cosmologia centrada em três aspectos Para pensar em transformações na maneira como experienciamos o mundo, almejando aprimoramentos no modo como vivemos e construímos nossos lugares, cabe pensar sobre quais características gostaríamos que configurassem nossa noção de mundo – quais aspectos cosmológicos gostaríamos de privilegiar. Para isso, cabe realizar exercícios de percepção, observação e imaginação e, ao mesmo tempo, aventurar-se em estudos de cosmologias diversas. O que se segue é um princípio de esforço em tal sentido. Uma cosmologia que nos fornece alguns pressupostos cosmológicos importantes é a budista [1] . Nela, questões como a impermanência, a interdependência, a coexistência e a atenção ao sofrimento de todos os entes são fundamentais . Nos termos budistas, há três características inerentes a tudo o que existe: tudo é impermanente ( anicca ), tudo é insubstancial ( anatta ) e tudo é insatisfatório e carrega o sofrimento ( dukkha ). Analisemo-las: Anic...

A Contribuição das Ciências para o Aprimoramento Ético da Relação entre Humanidade e Natureza (Monografia da especialização em Ciência e Tecnologia - UFABC, 2021)

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A Contribuição das Ciências para o Aprimoramento Ético da Relação entre Humanidade e Natureza  Monografia da especialização em Ciência e Tecnologia UFABC, 2021 Link:  https://drive.google.com/file/d/1QY7rvwK5z0xwCxVhrAufRVfEWBbf4p1I/view?usp=share_link

A centralidade da geografia e da história no processo educativo (2021)

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           No imaginário comum, é costumeiro se valorar as disciplinas escolares com diferentes pesos: português e matemática no topo, inglês e ciências no meio, geografia e história abaixo e educação física e artes como algo paralelo, quase fora do propósito da escola, ou seja, apenas como momentos de descontração.           Tal hierarquia deriva de certas visões sobre o papel da escola e sobre qual modelo de humano/trabalhador desejamos e, ao mesmo tempo, é uma ferramenta para moldar as pessoas para o tipo de mundo que cunhou tais visões.           Para refletir sobre essa hierarquia, pensemos um pouco sobre quais dimensões de nosso desenvolvimento pessoal deveriam ser fundamentais. Tenho certeza que entre elas estaria perceber o mundo de modo cristalino e lúcido. Em outras palavras, é essencial que consigamos perceber a nós mesmos e aos demais seres e objetos - ...

Algoritmos morais (2021)

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Algoritmos morais Se considerarmos que a mente humana, pelo que sabemos atualmente, é plástica, passível de neuroplasticidade, e, em realidade, não é um fenômeno fixo, perene, formando um “eu” constante, mas sim uma série de eventos e processos fluidos e impermanentes que dependem dos inputs que “a ela” chegam, logo, podemos propor a tese de que programando a mente com bons algoritmos, inclusive para selecionar-se bons inputs que o alimentem, podemos gerar melhores outputs (melhores comportamentos morais, políticos, econômicos, estéticos etc.). Parece-nos que  há uma rica fonte de reflexões sobre a moralidade humana em t al compreensão da mente humana como uma espécie de central de processamento (como um computador orgânico) que opera com base em algoritmos que podem ser transformados. Se podemos reprogramar nossos algoritmos mentais, não há um “eu” perene, uma personalidade fixa, permanente, que deve obrigatoriamente ser vivida da mesma forma por toda a vida de determinada entidad...