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Sobre a experiência do sobrenatural: a busca pela ética

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  Preocupar-se com a ética é se preocupar com a correção de nossos atos. Preocupar-se com a correção de nossos atos é, primordialmente, preocupar-se com o modo como eles podem gerar sofrimento para outros seres e com os impactos de nossos atos aos ambientes que possibilitam a qualidade de vida de todos os seres. As preocupações de ordem ética são, portanto, de natureza diversa das preocupações estritamente ligadas à sobrevivência. O foco na sobrevivência, imperativo na ordem natural, dita a preponderância dos atos básicos da sobrevivência (se alimentar, reproduzir-se, competir por território ou poder) sobre quaisquer outras atitudes. Na prática, isso significa que, virtualmente, tudo é válido na busca da própria sobrevivência, independentemente dos prejuízos e sofrimentos impostos por tal busca a outros seres. Eis um resumo da lógica natural. A ética, ao limitar o escopo válido de nossas ações, mesmo que isso prejudique aspectos de nossa própria sobrevivência, transcende em nós...

O dia em que a humanidade alcançou o conhecimento total (Conto, 2023)

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  Chegou, como inexoravelmente haveria de chegar, o dia em que se concluiu o vetusto e edênico projeto humano de ser como Deus. A fruta foi deglutida e a Torre concluída. Naquele dia, o último detalhe sobre a última dúvida foi sanado. Nada mais havia de incerteza sobre questões como o início e o desenvolvimento do Universo, o surgimento do primeiro ser vivo, a maneira como a evolução biológica agiu em cada ramo da árvore da vida, a origem e a natureza da consciência e o modo como cada letra do imenso livro dos códigos genéticos opera individualmente e em comunhão com todas as outras. Compreendeu-se também todas as forças por trás da matéria e da energia e como elas se relacionam. Tudo o que se poderia conhecer já era conhecido em demasia e perfeição: cada processo, por mais sutil que seja, de cada corpo, de cada espécie, de cada paisagem… cada emoção, cada doença, cada síndrome, cada fenômeno atmosférico, astronômico ou tectônico… absolutamente tudo, toda a física, toda a química, ...

Veganismo: da natureza para a ética

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Somos animais. Assim sendo, desde nossa origem neste planeta, tentamos sobreviver enfrentando diariamente a luta pela vida. Com tal fim, aproveitando nosso aparelho digestório apto ao onivorismo, começamos a comer animais há mais de dois milhões de anos. Nada mais normal em uma natureza brutal estruturada sobre o ato de devorar aos demais para se manter vivo. Contudo, ainda que, do ponto de vista da manutenção do corpo, sejamos seres naturais, há algo que nos diferencia de outras espécies: algo que fez com que tenhamos começado a achar que não podemos obter nossas necessidades pegando objetos de pessoas que não os tenham nos dado, que não devemos satisfazer nossos desejos sexuais apenas pegando outras pessoas à força ou que não deveríamos matar outras pessoas apenas por fazerem parte de um grupo originário de outro território. A esse algo, costumamos chamar de ética. Derivada da mesma consciência privilegiada que gerou a ética, desenvolvemos também ciência sobre o mundo, e, neste proce...

Paredes de vidro: os erros de Paul McCartney

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Paul McCartney (que, absurdamente, após décadas defendendo o vegetarianismo, nunca se tornou vegano) disse que se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos. Pois bem: muitos anos se passaram depois que isso foi dito e, apesar de os matadouros não terem envidraçado suas paredes, a “quarta parede” caiu. Diversos filmes, amadores ou profissionais, expuseram com total crueza o que se passa atrás das paredes opacas. Nem seria mais preciso espionarmos de fora, através do vidro. Fomos levados para dentro dos matadouros. Nossas mentes puderam se conectar com a câmera-olho, de modo que estivéssemos lá, internamente, no calor e no terror da barbárie. Alguns humanos viram, refletiram e concluíram: o veganismo é uma necessidade ética para nossos tempos. A maioria, contudo, seguiu inerte, inabalada, e isso inclui parte substancial daqueles que também viram. A realidade é que as paredes poderiam ser de vidro, os abatedouros poderiam ser em praças públicas, ou mesmo na co...

A necessária dualidade moral na relação humanidade-natureza

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A necessária dualidade moral na relação humanidade-natureza* O presente ensaio analisa a relação entre a humanidade e a natureza (o que inclui nossa relação com os demais animais). Para isso, ele caminha por duas vias morais: uma que nos reaproxima da natureza e outra que dela nos distancia. Como guia para tal caminhada em duas direções eticamente complementares, recorremos ao conhecimento científico. Reaproximando-nos: filhos do Universo, da Terra e da evolução da vida Considerando que, para além de qualquer diferença que possamos ter, habitamos todos neste mesmo Universo, parece-nos adequado ouvirmos primeiramente o que têm a dizer as ciências que lidam com tal Universo em sua imensa magnitude, ou seja, o que nos contam ciências como a astronomia e a cosmologia. Uma aposta com tal espírito foi apresentada por Neil Postman como parte de uma reflexão sobre o currículo escolar: quando se trata de temor reverencial, não há nada que se compare com a astronomia ”. [...]  Seu estudo ine...

Ética Baseada em Dados: sobre a importância do raciocínio moral com inputs científicos

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   Ética Baseada em Dados: sobre a importância do raciocínio moral com  inputs  científicos* Iniciemos nossa reflexão emprestando os termos usados pelo psicólogo James Rest em seus estudos sobre os processos envolvidos em nossa moralidade: “ segundo Rest (1992), o comportamento moral ou ético depende de quatro tipos de processos psicológicos: a sensibilidade moral, o raciocínio moral, o comprometimento moral e a perseverança moral”  (REIS, 2007, p.37). Definamos um pouco melhor: A sensibilidade moral é a capacidade de reconhecer uma questão como um problema moral [...] . O raciocínio moral é um processo de pensamento sobre os comportamentos mais adequados perante determinadas questões éticas [...].O comprometimento moral consiste na opção por uma determinada ação ética em detrimento de outras ações consideradas não-éticas [...]. A perseverança moral consiste na força de carácter e na tenacidade necessárias à concretização das decisões pessoais.  (Ibid., p.3...