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O Poder da Comunidade (Conto, 2009)

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O Poder da Comunidade I Em Outubro deste ano, o magnânimo prefeito, aclamado por seus eleitores, fez uma grande reforma nas praças públicas da cidade. Com o apoio da iniciativa privada e os honestos trabalhos de uma empresa privada corretamente licitada, ousou sonhar com novos centros públicos. Todas as grandes praças da cidade passaram por imensas reformas. Novos gramados, novas mudas de árvores, limpeza dos lagos e novos bancos.  Os novos modelos dos bancos eram a grande sensação. Importados da Europa, pelo que disse o noticiário televisivo. Foram inteiramente pagos por grandes empresas bancárias, que levam seus louváveis nomes em pequenas placas junto aos bancos. Como previsto, recorrendo a infames tentativas de humor publicitário como “o banco que apoia seu banco” ou “nosso banco está sempre pronto pra te apoiar”. Eram bancos com a mais nova tecnologia para a comodidade dos transeuntes, com curvas para encaixar os glúteos e braços individuais que impedem que a pessoa sentada ao...

Oswaldo, o Intelectual Literato (Conto, 2009)

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Oswaldo,  O Intelectual Literato I Procurei por toda a biblioteca por uma mesa que estivesse longe de alguém teclando em um maldito computador portátil. Não achei. Sentei na última mesa, encostado na parede do fundo. Ao meu lado, o ar condicionado zumbia fortemente. Meu ouvido direito doía. Coloquei meus fones de ouvido, ainda que desconectados de qualquer fonte sonora, apenas para abafar os ruídos. Não adiantou. Resolvi não prestar atenção e começar a escrever. Em poucos minutos minha cabeça doía, mas o texto ficava de meu agrado. Resolvi não mudar de mesa para não perder a inspiração. Virei escritor há duas semanas. O bom da literatura é que se pode defender ideias sem necessariamente concordar com elas. Nem mesmo é necessário fazer parecer que se possui qualquer ideia com a qual se concorda. Não preciso justificar meus métodos, nem aderir a uma orientação teórica. Há oito semanas deixei de ser acadêmico. Há duas semanas virei escritor. Há uma semana acabei meu primeiro conto. O ...

Da ineficácia revolucionária (2009)

Da ineficácia revolucionária Dennis Zagha Bluwol, 2009 Se houvesse compaixão, A revolução seria A mais simples Ação

Corda bamba (2009)

Iniciam te criticando por viver sem perceber que estás na corda bamba. Aí te fazem ver que estás na corda bamba, Para que possas rir mesmo estando na corda bamba. So What?

Por que escrever?

Este é meu periscópio. Não um que paira, mas um que convive imerso.  Escrever é viver criando novas possibilidades de vida. Não é criação teórica.  Por mais sujo, ríspido, triste ou angustiante que pode ser um texto, não é em nome da sujeira, rispidez, tristeza ou angústia. É por almejar algo outro.  Pode ser uma revelação de loucuras para negativar a perigosa ilusão da estaticidade. Pode também vomitar insanidades para negativar nossa calamidade. Quantas ilusões são necessárias para formar uma humanidade?

Um Homem Íntegro (Conto, 2009)

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Um homem íntegro (2009)   I A gente não escolhe a espécie em que nasce. Muitas vezes andei amoroso pelas ruas. Os que me viam certamente pensavam: “Aí está uma boa alma”. Mas era por causa deles que tal amorosidade se esvaia. Resolvi ficar em casa. Que não me venham falar que nunca tentei o convívio. Quando jovem tentei as festas. Rapidamente concluí que eram ótimos lugares para se criar expectativas prévias e lamentos posteriores. Desisti. Tentei os bares e as moças que os frequentam. Beber e esperar pelas igualmente bêbadas era fácil. Percebi, nem tão rapidamente, que nem só de jorro de esperma vive o homem. Desisti. Resolvi ser escritor e me colocar ao mundo pelas letras. Comprei um computador e com ele me uni por uma noite. Tentei escrever um romance descrevendo todas as minhas mazelas de amor. Se não fosse interessante, ao menos havia eu certeza de que assim as tiraria do espírito, como a um câncer. Escrevi horas e horas. Inacreditáveis horas seguidas, remoendo mente e corpo s...

POR UMA GEOGRAFIA NÃO ESPECISTA

  Escritos geográfico-panfletários * Número 02 POR UMA GEOGRAFIA NÃO ESPECISTA Dennis Zagha Bluwol Discutimos no curso de Geografia: a humanidade é também natureza. Tudo faz parte da natureza. Discutimos também: vivemos em um modo de produção onde a humanidade é explorada por uma minoria de seus próprios integrantes. Comentamos: o “meio-ambiente” é explorado também neste processo. Mas não discutimos: o mesmo processo que explora humanos e o que eles consideram ser “recursos naturais” explora também outros animais não humanos, que possuem, em semelhança ao humano, a capacidade de sentir dor, incomodo, prazer e desprazer. E mais: não possuem apenas sensibilidade, mas também certa consciência destas sensações: são sencientes. Assim, tais animais sofrem atrocidades inenarráveis. Bilhões deles, constantemente. Um número gigante de atrocidades, de imposição de dor, desconforto, separação da família, do convívio social padrão de sua espécie, de seus comportamentos comuns, torturados...