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Sobre a libertação da libertação

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   Sobre a libertação da libertação   Vivemos, nestes últimos anos, um momento interessante no movimento vegano: a tentativa de se estabelecer uma visão abolicionista, demarcando territórios necessários em meio à multiplicidade de discursos que, em nome do mesmo “movimento”, por vezes se antagonizam. Contudo, nesse esforço, houve uma proliferação de pessoas e textos tentando homogeneizar não apenas o veganismo, mas também os veganos. (Confesso que caí nesse erro em meus primeiros textos e palestras sobre o tema, a partir de 2005, tentando demarcar um veganismo que expressasse conceitos e visões de mundo clássicas de visões políticas à esquerda. Com o passar do tempo, fui tentando desenvolver uma ética mais interdependente e complexa, que não se limita às clássicas categorias marxistas). Cada vez mais vemos textos e discursos criticando a existência de personalidades e interesses diversos entre os veganos (esotéricos, místicos, hippies, yogues, punks, liberais, capitalista...

Ficam cuidando de animais enquanto pessoas passam fome… (2010*)

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Quantos de nós, ativistas pela relação eticamente aceitável com os animais, pelos direitos dos animais, pela abolição da escravidão dos animais, nunca ouviu essa crítica? Dentre tantas reações infundadas contra nossas posições ouvidas nos diálogos cotidianos, esta é uma sempre presente: “se preocupam tanto com animais enquanto há pessoas passando fome, enquanto há tanta miséria, tantas injustiças sociais…”. Uma primeira questão é de ordem prática é: por que esses que nos acusam entendem que quem ajuda e se preocupa com animais, automaticamente não ajuda nem se preocupa com humanos? Tal oposição não se sustenta obrigatoriamente. Pode ser verdade para algumas pessoas, mas não é uma oposição lógica obrigatória. Porém, há outras questões em jogo, e é sobre elas que falarei a seguir. Há um tipo nefasto de consenso em nossa sociedade de que os animais não-humanos são inferiores aos humanos. Trata-se de uma tradição milenar e encontrou guarida, por exemplo, em filosofias que consideram a ra...

Os gérsons (pseudohaikai)

  Pseudohaikai  a duas mentes com Cecilia Lenzi   São Paulo Entre os Gérsons Os panacas nos esprememos

Também Celebro (Poema, 2011)

Também Celebro (um poema de inocência de um autor superado) Para Walt Whitman Também celebro. Sofro mas celebro. Sofrer e celebrar não se anulam e não extinguem o canto de louvor.   Poderia dizer que sou o solo, as águas, o ar, você. Mas o que é o solo senão um assombroso amontoado de não solo? Ser não sendo aponta para o fundamento de ser.   Não há crise de identidade. Identidade é um sintoma da crise. Isto sinto e disto sei.   Poderia celebrar você e o vento e a água por nos dependermos mutuamente. E celebro. Mas ma atento mais para a existência que para a dependência. Poderia nada haver, mas o existir foi concedido. Curvo-me.   Sei que nossas coisas são filhas das coisas da natureza. Mas sei também que são diferentes e nos moldam diferentemente. Sei que barulho e silêncio coexistem. Respeito. Mas silêncio e barulho nos moldam diferentemente. E sei que o barulho da natureza não é barulho. E o das máquinas é.   No i...

James, o acadêmico qualitativo (Conto, 2010)

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James, o acadêmico qualitativo James era um famoso pensador em sua universidade. Um procurado analista. Negava-se a ver as coisas quantitativamente. Uma vez lhe perguntaram sobre quantas pessoas ele já havia tido algum relacionamento amoroso, ao que ele respondeu: - Não sei, é uma pergunta difícil, pois há mulheres, assim como homens, evidentemente, que não valem uma unidade, outras valem muitas; mas, ainda, o que seria esta unidade, este equivalente geral? Isto seria impossível de encontrar, pois não há um equivalente geral em seres tão díspares entre si, de naturezas tão misteriosas. Assim, só o que sobra é a unidade biológica, genética, o limite do corpo, não da mente ou do espírito. Algo muito restritivo ao meu conceito de pessoa. Assim sendo, é impossível contar. E saiu de fininho enquanto todos se olhavam...

Compêndio da cosmovisão Picarética

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   Compêndio da cosmovisão Picarética   Metafísica  (Princípios da visão de mundo) A natureza última do universo é o absurdo. A natureza última não é nem uma essência nem um princípio, pois não é anterior nem posterior às coisas. O sentimento mais próximo da louvação é o espanto. As coisas “simplesmente” são. Este “simplesmente” não denota uma simplicidade, mas “apenas” que as coisas “apenas” são. Este “apenas” não quer dizer que isto é pouca coisa, mas apenas que as coisas são. E pronto. E coisas inter-relacionadas transformam-se e criam umas às outras, que devem suas existências às anteriores, mas são, ainda assim, sem planejamento prévio. As únicas coisas que possuem porquês são as criadas por seres conscientes. A complexidade destes porquês depende da complexidade da(s) consciência(s) que as criaram. E isto é muito variável, seja por espécie, seja por indivíduos da mesma espécie. O universo, portanto, apenas seria fruto de porquês se criado por seres conscientes ...

Jack, o militante (Conto, 2010)

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Jack, o militante “ A mente humana é uma grande sandice para nossa razão ” V.P. Zaghananda Há aqueles que desejam determinar a realidade. Outros desejam indeterminá-la. As duas possibilidades nos traem. Jack era dos primeiros. Ativista sistemático. Foi obrigado a atrasar-se para uma revolucionária reunião pois seu intestino, em postura típica de um opressor da humanidade, um verdadeiro escravocrata, não lhe deu opção além de parar e defecar. Coerência, combate, resistência contra o opressor! Resolveu extirpá-lo. No dia seguinte, suas tripas expostas ilustravam a primeira página do jornal do Partido.