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Prosaicamente fardada (Poema, 2011)

Prosaicamente fardada Dennis Zagha Bluwol, 2011 Prosaicamente fardada, Guerreia a espécie dos profetas. Mal compreendido o amor pela palavra, Mal vivida sua ausência Soterram-nos verdades, Mas o vital se esvai pelas fronteiras.

12189

 12189 Desde que mudei para cá, minha nova toca de concreto, preocupo-me com a existência daquele terreno baldio bem às vistas de minha janela, sabendo já do interminável ruído que em breve será minha vida nesta cidade em constante construção. Nesta preocupação, digna da humana arrogância, não vi. Duas árvores, solitárias, em meio à terra pelada, batida, exposta. Terraplanada como nossos sentidos. Esta manhã – como que por uma preparação cósmica, lendo De Profundis – invadiu minha sala um motor. Tentando localizar o displicente motoqueiro, eis que vejo três homens. E sua serra. Ao olhar, a primeira, já praticamente decepada, revelou-me a tragédia da queda. * Ontem li que entre 1º de janeiro e 30 de abril, 12.187 árvores foram assassinadas em São Paulo. Mais duas. Prossegue assim o processo de empedramento da existência. Como um exemplar da espécie, lamento. De meu apartamento.   Quarta-feira, 1 de junho de 2011

O cientista e o místico

O cientista diz ao místico que sua crença não é real. Não é baseada em evidências. O místico diz que são, mas as evidências só são percebidas se procuradas. O cientista diz que o místico está vendo o que deseja, percebendo aquilo que condicionou a mente a querer perceber. O místico responde que o cientista também. E que toda percepção resulta de construções. O cientista diz que constrói suas verdades se baseando em evidências. O místico responde que ele também. O cientista diz que as evidências do místico não são empíricas. O místico responde que é porque os sentidos do cientista não o permitem perceber. O cientista responde. O místico também. O cientista responde. O místico também. E mais uma vez.

Uma vida ruim (2011)

Uma vida ruim Dennis Zagha Bluwol, 2011 Muito téc téc Pouco tuim É assim que se faz Uma vida ruim

Uma manhã de bilhões

Em meu agir, uma tentativa de sedução ao primata que vive em cada um de nós. Não abandonei o mundo. Jamais o amei tanto. Abandonei cosmologias de salvações exteriores. É preciso saber viver outras espacialidades, ainda que não vivendo em outro lugar, e saber viver outras temporalidades, ainda que não vivendo em outro tempo. Minha religião inexiste. Sou possuído por ela em existência. Embriaguez orgânica e consciente do aqui estar. Pela manhã, cumprimento meus ancestrais em seus quase quatro bilhões de anos e sou respondido.  Mais espectral me é a vida a cada dia.

Pincelada acerca do materialismo e da questão da fé

Dizem os materialistas: acreditamos apenas no que é perceptível. Apenas no concreto! A totalidade de seu mundo, portanto, é aquilo que algumas de suas formas de percepção permitem perceber.  Se dizem que não percebem nada além disso, ou que não desejam considerar nada além disso para gerir suas próprias vidas, estão corretos e honestos. Mas, se dizem que não há, com certeza, nada além daquilo que percebem, então é fé que possuem. Trata-se de um tipo de fé que busca provar a si mesmo de modo pretensamente racional. Isto é, absolutizam o relativo, e, em tal absolutismo, grande parcela dos materialistas irmana-se aos religiosos. 

Peronius de Mileto e Mark Head: fragmentos biográficos (Pseudohistória, 2010)

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Muitos pensadores e pensamentos perderam-se no tempo, sem discípulos para levá-los adiante, não registrados em papel, nem mesmo em pedra. Quão diferente teria sido a humanidade se em vez de Sócrates, Platão e Aristóteles conhecêssemos outros pensadores com visões de mundo completamente diferentes? Um destes pensadores perdidos na História é Peronius de Mileto (621-560 a.C.), esquecido completamente até o século XII, depois esquecido novamente até o século XIX, depois praticamente esquecido até hoje. Quase tudo o que escrevera ou ensinara perdera-se. Contudo, uma ínfima parte de seu legado fora descoberta no fim do século XIX pelo arqueólogo irlandês Mark Head em uma escavação. Trata-se de apenas dois pergaminhos escritos por um monge no século XII (que, sabe-se lá como, obteve acesso à inigualável herança intelectual de Peronius). Um pergaminho possuía algumas ideias e outro alguns dados biográficos de Peronius sistematizados pelo monge. Os registros sobre este monge dizem que era um l...