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História sem Fim

História sem Fim O que há com esta gente? Quinta-Feira. Foi com esta ideia que acordou para mais um renovador dia de trabalho. O que há com esta gente? O que há com esta gente?   Tetrapak. Sucrilhos. Bisnaga. Açúcar. Um cigarro. Larga a adolescência e transforma-se em população economicamente ativa. Pão de forma com margarina. Algo relaxa o senso crítico. No ônibus relembra: o que há com esta gente?   Desde o desjejum meio cansado. Primeiro café. Açúcar. Dois cigarros. Todos insanos no escritório. O que há com esta gente?   Segundo café. Açúcar. Três cigarros. Terceiro café. Açúcar. Quatro cigarros. Quarto café. Açúcar. Cinco cigarros. Efetividade. Produtividade. Seis cigarros. Ansiedade. Açúcar. Depressividade. Açúcar. Maldade. Sete cigarros. Obesidade.   Lanche. Sexta-Feira. Almoço. Cigarros. Café. Açúcar. Rodízio. Janta. Sábado. Pizza. Chope. Cigarros. Prostituição. Chope. Cigarros. Chope.   Televisão tem futebol. Futebol tem religião.  Religião tem te...

Dor na felicidade: outra manhã

Contemplo o tempo necessário e me ponho a pensar sobre o que fazer nesta manhã. Feeling allright. Mas onde estão todos? O que há com esta gente? Penso em mim e sinto dor na felicidade. Sinto perda no encontro. Sinto saudade na completude. Fico, apesar.  Uma figueira de quinhentos anos localiza meu constante movimentar.

Prosaicamente fardada (Poema, 2011)

Prosaicamente fardada Dennis Zagha Bluwol, 2011 Prosaicamente fardada, Guerreia a espécie dos profetas. Mal compreendido o amor pela palavra, Mal vivida sua ausência Soterram-nos verdades, Mas o vital se esvai pelas fronteiras.

12189

 12189 Desde que mudei para cá, minha nova toca de concreto, preocupo-me com a existência daquele terreno baldio bem às vistas de minha janela, sabendo já do interminável ruído que em breve será minha vida nesta cidade em constante construção. Nesta preocupação, digna da humana arrogância, não vi. Duas árvores, solitárias, em meio à terra pelada, batida, exposta. Terraplanada como nossos sentidos. Esta manhã – como que por uma preparação cósmica, lendo De Profundis – invadiu minha sala um motor. Tentando localizar o displicente motoqueiro, eis que vejo três homens. E sua serra. Ao olhar, a primeira, já praticamente decepada, revelou-me a tragédia da queda. * Ontem li que entre 1º de janeiro e 30 de abril, 12.187 árvores foram assassinadas em São Paulo. Mais duas. Prossegue assim o processo de empedramento da existência. Como um exemplar da espécie, lamento. De meu apartamento.   Quarta-feira, 1 de junho de 2011

O cientista e o místico

O cientista diz ao místico que sua crença não é real. Não é baseada em evidências. O místico diz que são, mas as evidências só são percebidas se procuradas. O cientista diz que o místico está vendo o que deseja, percebendo aquilo que condicionou a mente a querer perceber. O místico responde que o cientista também. E que toda percepção resulta de construções. O cientista diz que constrói suas verdades se baseando em evidências. O místico responde que ele também. O cientista diz que as evidências do místico não são empíricas. O místico responde que é porque os sentidos do cientista não o permitem perceber. O cientista responde. O místico também. O cientista responde. O místico também. E mais uma vez.

Uma vida ruim (2011)

Uma vida ruim Dennis Zagha Bluwol, 2011 Muito téc téc Pouco tuim É assim que se faz Uma vida ruim

Uma manhã de bilhões

Em meu agir, uma tentativa de sedução ao primata que vive em cada um de nós. Não abandonei o mundo. Jamais o amei tanto. Abandonei cosmologias de salvações exteriores. É preciso saber viver outras espacialidades, ainda que não vivendo em outro lugar, e saber viver outras temporalidades, ainda que não vivendo em outro tempo. Minha religião inexiste. Sou possuído por ela em existência. Embriaguez orgânica e consciente do aqui estar. Pela manhã, cumprimento meus ancestrais em seus quase quatro bilhões de anos e sou respondido.  Mais espectral me é a vida a cada dia.